Eu vivi: Fui ‘presenteada’ com uma agressão no meu aniversário e isso me libertou de uma década de abusos

Foto: Pixabay

 

ATENÇÃO: CASO VOCÊ SEJA SENSÍVEL A TEMAS QUE ENVOLVAM VIOLÊNCIA, ESSA HISTÓRIA CONTÉM GATILHOS

 

Todos os nomes foram trocados para que a identidade da vítima seja mantida em sigilo

POR DANIELA TEIXEIRA

Humilhada e agredida. Foi assim que Amanda passou as horas que antecederam seu aniversário de 30 anos.

Há 9 anos em um relacionamento abusivo, ela já tinha suportado de tudo. Foram inúmeros episódios de maus-tratos e xingamentos até chegar às vias de fato. E, curiosamente, apanhar foi o pontapé inicial para a sua libertação.

“Eu só coloquei um ponto final na relação depois da agressão”, admite Amanda.

Isso porque, apesar de tudo o que o então companheiro fazia, ela queria salvar a relação. E também se sentia financeiramente dependente dele.

“Eu tentei empurrar com a barriga, salvar meu casamento. […] Eu não saí desse relacionamento antes porque, na minha cabeça, eu nunca ia me manter sozinha.”

Anteriormente ao abuso físico, porém, o parceiro havia dado indícios de seu descontrole emocional. Além dos xingamentos e humilhações, ele já tinha precisado ser contido por conhecidos em um ataque de fúria.

“Em 2017, teve o episódio de uma viagem que a gente fez junto com alguns amigos. Foi aí que eu descobri que ele usava drogas. A gente foi para a praia, ele bebeu, usou droga e teve um ataque de ciúme de mim. Os amigos dele me defenderam e o colocaram para fora da casa”, relembra.

Com isso, o homem perdeu a linha de vez.

“Ele amassou o carro inteiro, no chute e no soco. Mas não encostou a mão em mim”, relata.

Após o acontecido, o casal ainda seguiu junto: “Depois disso, eu empurrei por mais dois anos. E ele tentando e falando que ia melhorar”.

O ponto final

No fatídico dia que mudou sua vida, Amanda diz que o então marido chegou em casa bêbado e já partiu para cima dela. “Qualquer coisa era motivo de briga.”

Com vermelhões pelo corpo e o braço machucado, a vítima não pensou duas vezes e entrou em contato com as autoridades. “Chamei a polícia e ele ficou preso só na noite do ocorrido.”

Como punição, o agressor teve que desembolsar uma quantia em dinheiro .”Como ele não ficou preso, ele ia prestar serviço comunitário ou pagar salários mínimos. Ele pagou cinco salários mínimos e eu encerrei o processo.”

Questionada sobre a razão de não ter ido adiante com a ação judicial, Amanda explicou:

“Porque eu tinha medo dele. Quanto mais mexesse, pior ficava. Eu quis encerrar e não quis mais mexer para cada um seguir com a sua vida”.

Após o rompimento, porém, ela foi perseguida pelo agressor. “Depois que eu me separei, ele ficou quase um ano indo atrás de mim. Depois de seis meses da separação, ele invadiu e acabou com a festa de uma amiga. Ele também ia ao meu trabalho, ficava na porta do meu apartamento… Tanto que eu tive que me mudar para ter um pouquinho mais de segurança.”

Em virtude de tudo o que passou, Amanda precisou buscar ajuda médica. “Eu tive muita crise de ansiedade. Tive que procurar psicólogo, psiquiatra… hoje em dia estou um pouco melhor, mas ainda faço terapia e tomo florais e remédios para dormir, só que tudo natural”, explica.

Recomeço

Depois de tanto sofrimento, a vida voltou a sorrir para Amanda. Sozinha há um ano na ocasião, ela conheceu o atual marido. “Eu saí da água para o vinho. É totalmente diferente. A gente acha que não vai conseguir encontrar outra pessoa, por medo, por tudo o que viveu, mas a gente consegue. Tem pessoas boas no mundo.”

Casada novamente, a sobrevivente de violência doméstica é só elogios ao novo companheiro. “Eu até desconfiava no início. [Dizia] ‘Não, ele deve estar me enganando porque não existe homem desse jeito’. Porque ele me trata totalmente diferente do relacionamento que eu tive.”

Mesmo em uma relação saudável e com a terapia em dia, entretanto, Amanda confessa ter ficado com traumas. “Hoje eu me tornei uma mulher fria, que não acredita nas pessoas. Mesmo sabendo que existem pessoas boas, a gente sempre fica desconfiado.”

Por fim, Amanda deixa um conselho para quem vive uma situação de violência doméstica.

“Na primeira vez em que o parceiro for abusivo, caia fora. Porque a pessoa não muda. Se a mulher já está em um relacionamento antigo e tem medo de sair dele, saia porque toda mulher consegue ser independente”, garante.

Caso você ou alguém que você conhece esteja passando ou tenha passado por algo semelhante, não hesite em denunciar. No exterior, procure a delegacia mais próxima ou o consulado brasileiro. No Brasil, use uma das opções abaixo:

Polícia Militar: Ligue 190 – caso a criança esteja correndo risco imediato
Samu: Ligue 192 – caso seja necessário o socorro urgente
Disque 100: Este número recebe denúncias de violações de direitos humanos, feitas de forma anônima
Conselho tutelar: Os conselheiros vão até a casa denunciada e verificam o que está ocorrendo (todas as cidades contam com conselhos tutelares)
Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres
Qualquer delegacia de polícia
WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos:
(61) 99656- 5008

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