ATENÇÃO: CASO VOCÊ SEJA SENSÍVEL A TEMAS QUE ENVOLVAM VIOLÊNCIA, ESSA HISTÓRIA CONTÉM GATILHOS
Todos os nomes foram trocados para que a identidade da vítima seja mantida em sigilo
POR DANIELA TEIXEIRA
“Abuso? Foi coisa boba de homem. Não teve maldade. Você destruiu nossa família por besteira. Eu nunca mais quero olhar para a sua cara. Eu te odeio, menina!”
Essas duras palavras ecoaram na cabeça de Jéssica por muito tempo. A avó, a quem considerava como uma segunda mãe, cortou relações com ela após a garota, na época com 13 anos de idade, ter denunciado tio Zé, filho do meio da idosa, por abuso.
As investidas do parente tiveram início quando Jéssica tinha 7 anos. “Eu cheguei da escola e não tinha ninguém em casa. Somente ele. Eu disse que ia me trocar para almoçar e esse tio se ofereceu para me ajudar a tirar a roupa. Eu recusei, mas ele insistiu”, relembra.
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Em seguida, tio Zé, mesmo com os protestos da sobrinha, disse que passaria um hidratante em seu corpo. A justificativa foi de que a sobrinha estava com a pele dos joelhos e cotovelos ressecada.
“Eu sou preta e ele falou que minha pele estava acinzentada. Quando começou a passar o creme no meu corpo, inclusive até por cima da minha calcinha, ele começou a se esfregar em mim. Foi horrível”, diz.
Jéssica, embora fosse apenas uma criança, entretanto, sabia que aquilo era muito errado. “Eu sempre fui muito precoce e vivia atrás das minhas primas de 13, 14 anos. E elas falavam sobre sexo. Então, eu sabia de muitas coisas que meninas da minha idade não sabiam. Óbvio que eu não entendia completamente o que ele tinha feito, mas eu sabia que era algo relacionado à intimidade entre homem e mulher.”
Primeiro pedido de ajuda
Por essa razão, assim que a avó retornou para casa, naquela tarde, contou o que tinha acontecido. “Mas ela me deu a maior bronca e falou que aquilo não era conversa de criança, que meu tio jamais faria uma coisa daquelas.”
A idosa, inclusive, a ameaçou: “Minha avó disse que se eu repetisse aquela história para alguém, ela me daria uma surra”.
Na época, Jéssica vivia na casa da idosa com a mãe, tio Zé e dois primos maiores de idade. Sem pai – que sumiu quando a mãe engravidou -, a menina sempre teve muito amor pelo tio. Pelo menos até aquele dia.
“Depois do que aconteceu, eu fiquei com medo dele. E nojo também. Só que ele nunca mais me deixou em paz.”
Ao perceber que seu abuso não tinha tido nenhuma repercussão negativa, tio Zé passou a tocar em Jéssica e a encostar seu órgão masculino nela toda vez que encontrava uma oportunidade.
“A partir daí foi piorando. Quando eu chegava da escola e minha avó não estava, ele me obrigava a ‘satisfazê-lo’. Minha vida virou um terror sem fim.”
Cuidadoso, o tio mau caráter nunca chegou aos ‘finalmente’ com ela. “Acho que ele tinha medo porque seria uma prova incontestável, né?”
Segundo pedido de ajuda
Foram seis anos servindo de objeto para o homem, 28 anos mais velho que ela. Até que, enfim, Jéssica não aguentou mais.
“No dia em que resolvi jogar a mer$@ no ventilador, foi porque eu percebi que ele estava cada vez mais descontrolado e que algo pior estava prestes a acontecer”, explica.
Jéssica estava na escola, para onde tinha ido no meio da tarde fazer um trabalho em grupo com alguns colegas de classe. No entanto, logo após chegar ao local, teve uma crise de choro e foi acolhida por uma professora que passava pelo pátio do colégio.
A profissional, preocupada, a levou para uma sala e quis saber o que estava acontecendo. A princípio, a adolescente cogitou mentir, mas mudou de ideia e resolveu confiar na professora.
“Ela ficou chocada com tudo o que eu relatei. Aí ela me levou para a diretoria, explicou para a diretora toda a história e as duas me disseram que iam ter que chamar a polícia. Eu entrei em pânico”, afirma.
Isso porque a garota temia muito a relação da família. “Depois da forma como a minha avó me tratou quando contei do primeiro abuso, eu morria de medo do que me aconteceria se a polícia fosse envolvida”, confessa.
No entanto, ela não teve alternativa: “A professora e a diretora realmente chamaram a polícia e ficaram ao meu lado enquanto eu contava toda a história para os policiais”.
Depois disso, os oficiais foram até a casa da avó, levaram tio Zé para prestar esclarecimentos e a mãe de Jéssica foi chamada.
“No começo, minha mãe me perguntou se eu tinha certeza mesmo de tudo que eu estava contando. Eu chorava muito e ela também. Mas eu jurei que não estava mentindo. E ela, para o meu alívio, acreditou em mim e me acolheu.”
Racha na família
Contudo, o restante dos familiares ficou contra as duas. “Minha avó virou um bicho. Me xingou, tentou me bater… Se não fosse a minha mãe ao meu lado, minha avó teria acabado comigo”, lamenta.
A veterana, inclusive, minimizou as atitudes de tio Zé. “Você sabe que ele é brincalhão. Ele te tem como uma filha. Isso é coisa boba de homem.”
Nessa hora, porém, a mãe saiu em defesa de Jéssica: “Coisa de homem? Abusar da minha filha, sobrinha dele, é coisa de homem? Esse vagab&%$@ destruiu a vida dela. Acorda para a vida!”.
Mesmo assim, a avó não deu o braço a torcer e afirmou que não queria mais nenhuma das duas em sua casa.
“Tivemos que pegar nossas coisas e ir morar de favor na casa de uma amiga da minha mãe, até ela achar uma casinha com um aluguel em conta para a gente morar.”
Impunidade
Já tio Zé acabou se safando da prisão, uma vez que Jéssica não tinha provas físicas de tudo o que denunciou. “A Justiça é muito falha nesse sentido. Eu fiquei muito triste. Essa história me jogou no fundo do poço e nada aconteceu com ele.”
Inclusive, o mau caráter permanece garantindo que tudo não passou de invenção da sobrinha. “Ele fala para todo mundo que eu inventei tudo porque sou perturbada da cabeça.”
Depois do ocorrido, Jéssica nunca mais falou com a avó. “Ela diz que prefere ver o diabo do que me ver na frente dela de novo.”
A história, aliás, deixou uma marca profunda na vida da moça, atualmente com 22 anos.
“Eu e minha mãe fomos praticamente escorraçadas da família e tivemos que lutar muito para superar todo o trauma que o irmão dela nos causou. Mas seguimos vencendo”, enfatiza.
Sobre a possibilidade de um dia se reconciliar com os parentes, ela dispara: “Só se eles admitirem que eu estou certa e que meu tio é mesmo um abusador”.
Mas deixa claro: “Se a minha mãe quiser voltar a falar com a mãe dela – afinal, mãe é mãe -, eu não me importo. Mas eu mesma quero distância”.
A mágoa da avó, inclusive, ainda é grande: “Ela poderia ter salvado a minha infância se tivesse dado ouvidos ao que eu contei logo no início de tudo. Eu a culpo tanto quanto o culpo”.
Por fim, Jéssica diz que o que aconteceu mudou sua vida para sempre, mas também lhe trouxe uma grande lição.
“Quando eu tiver um filho, não vou confiar em ninguém. Nem na minha sombra. Vou ser a mãe que não deixa o filho ir para a casa dos amiguinhos, dormir com parentes, nada. Porque uma vez que algo ruim acontece, você fica marcado para sempre”, desabafa.
Para contar sua história, mande um e-mail para euvivi@fatosefama.com.br
Caso você ou alguém que você conhece esteja passando ou tenha passado por algo semelhante, não hesite em denunciar. No exterior, procure a delegacia mais próxima ou o consulado brasileiro. No Brasil, use uma das opções abaixo:
Polícia Militar: Ligue 190 – caso a criança esteja correndo risco imediato
Samu: Ligue 192 – caso seja necessário o socorro urgente
Disque 100: Este número recebe denúncias de violações de direitos humanos, feitas de forma anônima
Conselho tutelar: Os conselheiros vão até a casa denunciada e verificam o que está ocorrendo (todas as cidades contam com conselhos tutelares)
Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres
Qualquer delegacia de polícia
WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008