Eu vivi: Meu marido me batia e obrigava meu filho a me bater também

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Foto: Pixabay

ATENÇÃO: CASO VOCÊ SEJA SENSÍVEL A TEMAS QUE ENVOLVAM VIOLÊNCIA, ESSA HISTÓRIA CONTÉM GATILHOS

*Todos os nomes foram trocados para que a identidade da vítima seja mantida em sigilo

POR DANIELA TEIXEIRA

 

“Mãe, eu não quero mais fazer isso. Por favor, vamos embora. Eu odeio meu pai. Ele é muito mau.”

Estas foram as palavras que fizeram com que Ariana*, após 12 anos, finalmente despertasse para a sua realidade.

Durante todo o período, a mulher, de 32 anos de idade, havia permanecido ao lado do marido com a desculpa de não criar o filho longe do pai. Mas agora, o próprio menino não queria mais estar perto dele.

João, seu filho, havia acabado de completar 11 anos. Pré-adolescente, ele já entendia perfeitamente o que a mãe passava nas mãos do pai, Silvano, e não queria mais que ambos continuassem vivendo sob o mesmo teto que ele.

Naquela tarde, mais uma vez Silvano havia chegado em casa bêbado e encrencado com um copo sujo na pia. Irritado, xingou e estapeou Ariana e chamou João para terminar o ‘serviço’.

“Quando ele estava muito bêbado ou já tinha me batido muito e estava cansado, meu marido obrigava meu filho a também me bater. Era uma tortura para nós dois”, relembra.

E detalha: “Ele dizia que homem tinha que aprender desde cedo a ‘educar’ uma mulher. Meu filho chorava porque não queria me machucar, mas se ele não me batesse, era ele quem apanhava”.

Ainda muito novo, o menino sequer tinha força o suficiente para machucar a mãe. “Como ele batia fraco, o pai dele dava socos nele e mandava ele me bater como homem. Ele chorava muito. Já chegou até a fazer xixi na calça algumas vezes. Aí apanhava mais ainda.”

No entanto, nem mesmo a violência contra o próprio filho fez com que Ariana abandonasse Silvano. “Eu achava que ele ia mudar e que casamento é pra vida toda. Não importam as circunstâncias.”

Contudo, as palavras de João dizendo que odiava o pai atingiram um ponto mais profundo na mente e no coração de Ariana: “Eu achava que estava fazendo o melhor para ele mantendo a família unida, os pais casados. Mas, na verdade, meu filho estava é cheio de traumas e ódio”.

Hora de fugir

Por essa razão, ela planejou e executou sua fuga. “Não consegui ir embora naquele mesmo dia porque meu então marido estava em casa e já estava escurecendo. Mas no outro dia, assim que ele saiu para trabalhar, eu peguei o que consegui de dentro de casa e fugi com o meu menino.”

Sem saber o que fazer, Ariana procurou uma amiga antiga que trabalhava como secretária de um advogado. “Ela ficou chocada quando me viu, porque eu estava machucada. Mas aquilo era normal para mim. Como eu só ficava dentro de casa, acabava que ninguém via as marcas.”

A tal moça, solícita, entrou em contato com o chefe, que pediu para que Ariana fosse até o seu escritório naquela mesma manhã.

“Quando minha amiga foi trabalhar, já levou eu e o meu filho com ela. Chegando lá, o advogado cuidou de tudo”, conta.

O profissional, além de não cobrar nada por seus serviços, foi com Ariana pessoalmente para fazer um boletim de ocorrência contra o companheiro. E de lá, ela fez um exame de corpo de delito, que identificou agressões físicas e sexuais.

Nos dias seguintes, abrigada na casa da amiga, Ariana foi informada de que o advogado havia pedido uma ordem de restrição para que o ex não pudesse mais chegar perto dela, além de ter entrado com um pedido de guarda unilateral para que o filho não precisasse mais conviver com o pai.

“Ele fez tudo para mim. Esse homem foi um anjo na minha vida”, afirma sobre o advogado.

Depois de alguns meses, João foi avaliado por profissionais do Estado, que comprovaram os abusos físicos e psicológicos do pai, e acabou tendo sua guarda entregue totalmente à mãe.

“Foi um alívio tão grande. Meu maior medo era ter que deixar meu filho ir passar fins de semana e férias com aquele monstro.”

Ao mesmo tempo em que aguardava os trâmites judiciais, Ariana reconstruía a sua vida. “Durante o tempo em que fiquei com aquele homem, ele não me deixava trabalhar. Então, foi difícil entrar no mercado de trabalho”, admite.

Por sorte, uma porta de emprego se abriu: “Comecei como faxineira em uma empresa e atualmente sou secretária”.

Engana-se, porém, quem pensa que Silvano deixou Ariana em paz facilmente. “Nossa, foram muitas ameaças, perseguições… ele quebrou a medida protetiva muitas vezes. Quando eu chamava a polícia, ele fugia.”

A mulher, inclusive, confessou viver com muito medo. “Eu estava sempre apavorada. Achava que ele ia me matar, que ele ia sequestrar meu filho…”

Novo companheiro

Apenas dois anos depois, quando Ariana encontrou um novo amor, é que Silvano desistiu de procurá-la. O motivo? Uma ameaça armada do atual parceiro.

“Não me orgulho disso, mas a verdade é que meu atual companheiro, que é policial, foi atrás dele, colocou a arma na cabeça dele e disse que se ele voltasse a me importunar ele ia morrer”, revelou.

E prosseguiu: “Como bom covarde que ele é, que só é valentão com mulher e criança, ele simplesmente sumiu das nossas vidas”.

O padrasto, aliás, virou o herói do filho dela. “João ama meu marido. Eles têm uma relação linda. Saem juntos, jogam video game juntos… João conta com ele para tudo. Até para falar das namoradinhas da escola.”

O ex-companheiro, apesar de ter sumido da vida deles, deixou grandes traumas. “Hoje o João está com quase 14 anos e ele ainda acorda gritando às vezes, no meio da noite. Mas ele está em tratamento psicológico e já está bem melhor.”

Ariana, por sua vez, também tem seus próprios ‘monstros’. “Esquecer o que ele me fez, esquecer todas as vezes em que ele obrigou o meu filho, chorando, a me machucar, é impossível. A terapia tem ajudado, mas eu ainda tenho muitas sequelas: me assusto por tudo, se alguém fala alto comigo eu fico nervosa e começo a tremer, se discuto com o meu marido eu fico com medo de apanhar… essas coisas.”

Por essa razão, ela afirma que as mulheres não podem permanecer em relações tóxicas achando que as coisas vão melhorar.

“Todo mundo diz isso, é clichê, mas a realidade é que monstros não mudam”, assegura.

E deixa um conselho:

“No primeiro empurrão, saia fora. Não espere começar a ser torturada dentro de casa, como eu, para tomar uma atitude. Porque aí já vai ser tarde demais. Eles minam nossa força de uma tal forma que a gente não consegue se livrar deles. Eu só consegui porque o sofrimento do meu filho, depois de anos, finalmente me deu forças”.

 

Para contar sua história, mande um e-mail para euvivi@fatosefama.com.br

Caso você ou alguém que você conhece esteja passando ou tenha passado por algo semelhante, não hesite em denunciar. No exterior, procure a delegacia mais próxima ou o consulado brasileiro. No Brasil, use uma das opções abaixo:

Polícia Militar: Ligue 190 – caso a criança esteja correndo risco imediato
Samu: Ligue 192 – caso seja necessário o socorro urgente
Disque 100: Este número recebe denúncias de violações de direitos humanos, feitas de forma anônima
Conselho tutelar: Os conselheiros vão até a casa denunciada e verificam o que está ocorrendo (todas as cidades contam com conselhos tutelares)
Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres
Qualquer delegacia de polícia
WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos:
(61) 99656- 5008

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