ATENÇÃO: CASO VOCÊ SEJA SENSÍVEL A TEMAS QUE ENVOLVAM VIOLÊNCIA, ESSA HISTÓRIA CONTÉM GATILHOS
Todos os nomes foram trocados para que a identidade da vítima seja mantida em sigilo
POR DANIELA TEIXEIRA
“Você me obriga a fazer isso. Por que você não consegue ser uma mulher decente?”
Com essa frase Mohamad, de 32 anos, encerrava mais uma sessão de espancamento – ou de “ensinamento”, como ele denominava – e Mayara, de 25, aos prantos, tentava se levantar para ir ao banheiro se lavar.
O marido, a quem havia conhecido dois meses antes, usava a ‘correção física’ sempre que a esposa agia, de acordo com ele, de forma contrária aos bons costumes de seu país – uma nação árabe que a vítima prefere não revelar.
Para completar, terminava a tortura tendo relações íntimas com Mayara. “Ele dizia que eu não tinha querer, que era haram [pecado, algo ilícito no islã] a mulher se recusar a satisfazer o esposo”, relata a vítima.
Muçulmano, Mohamad afirmava levar a religião muito a sério. E quando agredia a companheira, assegurava estar amparado pelo Corão – livro sagrado de sua fé -, já que, em seu entendimento, esse era o caminho para que ela se submetesse à doutrina.
Naquele dia, o motivo da surra havia sido as vestimentas de Mayara. Preocupada em terminar os afazeres de casa antes que o companheiro voltasse do trabalho, ela decidiu varrer o quintal e aguar as plantas vestindo shorts na altura dos joelhos e uma camiseta regata. Algo inadmissível para o esposo.
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“Eu dei azar de ainda estar do lado de fora limpando quando ele chegou. E ele estava com o tio, que ia jantar com a gente. Acho que isso o deixou mais irritado. Porque o tio era um homem muito religioso”, lembra.
O marido, então, já entrou em casa a segurando forte pelo braço.
“Ele me obrigou a colocar calça, uma bata de mangas compridas e bem longa e me mandou servir o jantar deles, mas sem me assentar à mesa. Quando os dois terminaram de comer, ele me mandou ir para o quarto e ficar trancada lá até o tio ir embora. Não pude nem jantar.”
Mal sabia Mayara, porém, que mais uma sessão de terror lhe aguardava.
“Quando ele foi para o quarto, já entrou me xingando e me puxando pelos cabelos. Depois começou a me dar socos de mão fechada no rosto. Nem sei quantos. Eu só sentia o sangue escorrendo”, relembra.
Com a face machucada, aos prantos e com muita dor, Mayara ainda teve que passar por outro abuso.
“Parece que me bater deixava ele excitado. Sempre que ele me batia, ele fazia sexo comigo em seguida.”
Sequelas da violência
No entanto, o ato íntimo foi tão violento que Mayara começou a sentir fortes dores, que se prolongaram por mais 5 dias. “Ele não queria que eu fosse ao médico e falava que eu estava com frescura. Só que a dor se tornou insuportável e eu comecei a ter febre, calafrios e não conseguia mais levantar da cama”, detalha.
Convencido de que não era apenas uma cena da parceira, o marido aceitou levá-la ao hospital. “A médica identificou uma lesão grave no colo do útero que já estava em estado avançado. E como eu demorei para ir ao pronto-socorro, tive que ser operada às pressas.”
Durante a cirurgia, Mayara precisou ter o útero removido. “A médica disse que o caso era pior do que imaginava e que não conseguiu salvar meu útero.”
“Eu não vou poder ser mãe nunca”, lamenta.
Entretanto, seu quadro seguiu grave. “Quando eu saí da sala de operação, tive algumas complicações e precisei permanecer na UTI. E foi lá que eu peguei uma bactéria que me levou ao coma”, explica.
Mayara, então, passou a lutar pela vida. Foram 17 dias inconsciente até que ela voltasse a abrir os olhos. “Graças a Deus e à equipe médica que não desistiu de mim eu posso estar aqui hoje para contar minha história”, celebra.
Mohamad, por sua vez, não apareceu nenhum dia no local para visitá-la. “Uma enfermeira disse que ele pediu para ser avisado quando eu tivesse alta porque ele iria me buscar. Depois ligou para saber se eu ainda estava em coma e foi isso.”
Fugindo do marido
Conforme se recuperava, porém, ela ia traçando um plano de fuga com a mãe, que estava no Brasil, bastante preocupada, mas já tinha levantado o dinheiro necessário para comprar a passagem da filha.
“Eu tive ajuda de uma enfermeira. Ela foi um anjo. Não apenas ela me deixou usar o celular dela sempre que eu precisava, como imprimiu para mim o voucher da passagem aérea que a minha mãe havia comprado para que eu pudesse embarcar.”
Por sorte, Mayara estava com seu passaporte em mãos. “Quando aquele infeliz me levou ao hospital ele entregou meu passaporte na recepção, já que eu era estrangeira e ainda não tinha documentos no país”, explica.
A falta de documentação se devia ao fato de que Mayara havia chegado ao local cerca de dois meses antes de sua internação. Em um rompante do que hoje ela chama de loucura, a moça embarcou para o país muçulmano para se casar com Mohamad sem nunca tê-lo visto pessoalmente.
O casal subiu ao altar apenas dois dias depois.
Amor virtual
“A gente namorava virtualmente há um ano e meio. Aí ele me pediu em casamento e disse que mandaria uma passagem para que eu fosse ao seu encontro. Eu, sem juízo, aceitei. Enviei meus documentos para ele e, quando cheguei lá, tudo estava pronto para o casamento”, detalha.
A família, claro, foi contra. “Minha mãe quase enlouqueceu. Disse que ele poderia ser um assassino, que poderia me matar, vender meus órgãos. Quase que ela acertou, né? Por pouco eu não morri.”
Mesmo assim, Mayara ignorou os alertas e foi ao encontro do amor virtual. “Eu tinha certeza de que ele era o homem da minha vida e que a gente ia ser muito feliz.”
Porém, o marido mostrou suas ‘garras’ logo no início. “Acho que depois de uns 12 dias que eu estava lá eu apanhei pela primeira vez. E isso virou rotina.”
Sentindo-se mais forte e recuperada do procedimento cirúrgico ao qual foi submetida, Mayara ainda permaneceu no hospital até o dia de sua viagem. Somente com a roupa com a qual chegou ao médico, o passaporte e alguns trocados que havia achado no bolso de seu casaco ela conseguiu, finalmente, embarcar para o Brasil.
“Eu chorei a viagem inteira. De alívio por ter saído daquele inferno, de tristeza pelo que me aconteceu e de vergonha por voltar para casa depois de dizer que todo mundo estava errado e que eu ia viver um grande amor. Foi uma mistura de sentimentos.”
A mãe, claro, a esperava no aeroporto. “Minha mãe chorou demais quando me viu. Ela ainda nem sabia de tudo pelo que eu tinha passado, mas só de ver meu estado, minha palidez e o tanto de peso que eu perdi ela já imaginou que eu tinha sofrido muito.”
Sem denúncia
Questionada se denunciou o marido antes de retornar ao Brasil, ela nega: “Eu queria muito que ele pagasse pelo que me fez, mas em um país machista, onde a mulher é tratada como objeto, nada acontece com os abusadores”.
E continua: “Os médicos sabiam o que tinha acontecido. Além disso, meu rosto ainda estava roxo e inchado. Só que a enfermeira me contou que eles recebem muitos casos de esposas abusadas, mas que não chamam a polícia porque consideram isso um problema de casal que precisa ser resolvido entre os dois. Em país onde a religião e a lei se misturam é assim”.
Sobre a fé de Mohamad, ela faz questão de ressaltar: “Eu sei que a culpa não é do islã. Ele usa a religião para justificar as maldades que faz”.
Indagada sobre ter sido procurada pelo marido, ela diz: “Ele não falou comigo porque o bloqueei em tudo: redes sociais, e-mails, mudei até o número de telefone da casa da minha mãe”.
Contudo, Mayara ainda precisará entrar em contato com ele. Nem que seja através de um advogado. “Vou ter que contratar alguém no país dele para fazer meu divórcio. Ainda não fui atrás disso, mas descobri que mesmo que eu não tenha oficializado o casamento no Brasil, eu preciso me divorciar no país dele.”
Em virtude de tudo o que passou, Mayara faz questão de deixar um alerta para quem talvez esteja se preparando para mudar de país atrás de um grande amor.
“Mesmo que você ache que conhece muito bem o cara, faça ele vir ao Brasil primeiro te visitar. Depois vá visitá-lo também. Mas tenha calma. Não aja como eu, que já fui com tudo pronto para morar com ele. E faça um seguro-viagem. Foi a única coisa inteligente que fiz. Se não fosse isso, não ia ter como pagar o hospital. Talvez estivesse lá até hoje.”
E finaliza: “Tenha maturidade. O amor cego só te leva para o buraco. No meu caso, quase custou a minha vida”.
Para contar sua história, mande um e-mail para euvivi@fatosefama.com.br
Caso você ou alguém que você conhece esteja passando ou tenha passado por algo semelhante, não hesite em denunciar. No exterior, procure a delegacia mais próxima ou o consulado brasileiro. No Brasil, use uma das opções abaixo:
Polícia Militar: Ligue 190 – caso a criança esteja correndo risco imediato
Samu: Ligue 192 – caso seja necessário o socorro urgente
Disque 100: Este número recebe denúncias de violações de direitos humanos, feitas de forma anônima
Conselho tutelar: Os conselheiros vão até a casa denunciada e verificam o que está ocorrendo (todas as cidades contam com conselhos tutelares)
Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres
Qualquer delegacia de polícia
WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008