ATENÇÃO: CASO VOCÊ SEJA SENSÍVEL A TEMAS QUE ENVOLVAM VIOLÊNCIA, ESSA HISTÓRIA CONTÉM GATILHOS
Todos os nomes foram trocados para que a identidade da vítima seja mantida em sigilo
POR DANIELA TEIXEIRA
“A sua própria neta? Pai, como você teve coragem? Você é um monstro! Seu desgraçado! Eu vou te matar!”
Foi assim que os quatro anos de abusos sofridos por Joana chegaram ao fim. A garotinha, com 9 anos de idade, viu seu martírio finalmente acabar quando, naquele dia muito quente de verão, perto do Natal de 1990, seu Pai, Miguel, enfim, flagrou o avô Sebastião – pai dele – em uma nojenta relação íntima com ela.
Transtornado e cego de ódio, Miguel partiu para cima do idoso, na época com cerca de 60 anos, e passou a desferir socos e chutes sem ao menos lhe dar a chance de se vestir – sim, ele estava completamente nu em cima da neta quando foi encontrado.
Joana, por sua vez, só chorava, enquanto tentava se enrolar em uma toalha que havia achado atrás da geladeira. Seu estado emocional beirava a um colapso, afinal, eram anos acumulados de dor física e mental, de desespero e de medo. Muito medo.
Após algum tempo que ela não soube mensurar, viu alguns vizinhos entrarem na casa, preocupados com os gritos tanto de seu pai quanto do avô-monstro. Eles acreditavam que o idoso estava sendo vítima de maus-tratos. Ledo engano.
Assim que conseguiram conter Miguel e ameaçaram lhe dar um terrível corretivo pelo fato de ele ter espancado um senhor de idade, o pai de Joana explicou aos vizinhos o que havia ocorrido.
Chocados e vendo o estado emocional da garotinha, os homens tentaram acalmar Miguel e pediram para que ele deixasse a polícia resolver a questão.
Ainda fora de si, porém, Miguel não queria passar mais nem um minuto com o pai debaixo do mesmo teto que ele.
Por essa razão, foi até o quarto, pegou uma calça, uma camisa, jogou sobre o veterano – que permanecia caído no chão, mas consciente – e disparou, em meio a palavrões que não precisam ser citados:
“Você tem dois minutos para se vestir e sumir da minha frente. Senão eu vou te matar. Mesmo que depois disso eu apodreça na cadeia”.
Mesmo debilitado, com o rosto bastante inchado e sangrando, Sebastião não perdeu tempo. Escorando-se no sofá – onde ele cometeu o ato contra a neta pela última vez -, o idoso colocou sua calça, pegou sua carteira e saiu às pressas, sem nem colocar a camisa.
“Foi a última vez que eu o vi. Ele foi morar com um irmão do meu pai no interior e nunca mais tivemos nenhum tipo de contato”, relata Joana, atualmente com 42 anos de idade.
O restante da família, inclusive, cortou relações com eles por acreditarem na inocência de Sebastião. Apesar de ele ter sido pego no flagra.
Impunidade
Miguel, por outro lado, não quis levar o caso à Justiça. Para ele, a filha sofreria muito se tivesse que relatar à polícia e em uma possível audiência todo o terror que passou nas mãos do avô.
“Com a cabeça que tenho hoje, eu sei que deveríamos ter denunciado e feito aquele velho pagar. Eu não devo ter sido a única vítima dele”, opina Joana.
Vergonha
Porém, na época, há 33 anos, esse tipo de crime ainda trazia mais vergonha para a vítima do que para o agressor. E a família, em virtude disso, optou por dar amor e cuidado à criança, mas sem submetê-la aos trâmites legais.
“Meus pais me levaram a médicos para cuidar das sequelas físicas e também me levaram por anos a uma psicóloga, mesmo terapia ainda sendo um tabu na época”, destaca.
Culpa
Miguel se culpou por anos por não ter percebido o que acontecia com a filha. “Acho que ele se martiriza até hoje, mesmo eu já tendo dito que nada daquilo foi culpa dele.”
Como toda vítima de abuso na infância, Joana admite nunca ter tentado contar nada por causa das ameaças que sofria.
“Ele dizia que ia matar meus pais de formas horríveis. E que aí eu ia ficar morando apenas com ele, o que, para mim, representava o maior horror do mundo. Já era um tormento ficar com ele apenas algumas horas por dia depois de chegar da escola. Imagine ficar sob os cuidados dele 24 horas por dia, sete dias por semana?”
Em seu terceiro casamento, Joana crê que o que viveu na infância influenciou – e de forma muito negativa – seus relacionamentos.
“Eu precisei ter dois casamentos fracassados para entender que meu padrão de comportamento ainda estava relacionado aos abusos e que eu precisava de mais ajuda.”
Por isso, foi atrás de auxílio médico: “Foi quando voltei à terapia e procurei um psiquiatra. Hoje, tenho uma relação saudável e pouco lembro dos meus traumas”.
O avô, que nunca foi responsabilizado por ter destruído sua infância, faleceu há mais de uma década. “Embora não tenhamos tido mais nenhum tipo de contato, ficamos sabendo que ele sofreu muito antes de morrer. Teve uma doença incurável e definhou lentamente.”
Para ela, a justiça foi feita: “Acredito que essa tenha sido a minha justiça. E para quem, como eu, que acredita em céu e inferno, creio que ele garantiu seu lugarzinho no andar de baixo”.
Caso você ou alguém que você conhece esteja passando ou tenha passado por algo semelhante, não hesite em denunciar. Confira como:
Polícia Militar: Ligue 190 – caso a criança esteja correndo risco imediato
Samu: Ligue 192 – caso seja necessário o socorro urgente
Disque 100: Este número recebe denúncias de violações de direitos humanos, feitas de forma anônima
Conselho tutelar: Os conselheiros vão até a casa denunciada e verificam o que está ocorrendo (todas as cidades contam com conselhos tutelares)
Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres
Qualquer delegacia de polícia
WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008