ATENÇÃO: CASO VOCÊ SEJA SENSÍVEL A TEMAS QUE ENVOLVAM VIOLÊNCIA, ESSA HISTÓRIA CONTÉM GATILHOS
Todos os nomes foram trocados para que a identidade da vítima seja mantida em sigilo
POR DANIELA TEIXEIRA
“Não me procure mais! Vocês, latinas, são apenas uma diversão temporária para nós”
Com essa mensagem, Christopher terminou o relacionamento de três meses com Juliana, após a jovem, na época com 24 anos, ter deixado tudo para trás no Brasil para ir viver com seu então amor, um homem 15 anos mais velho, na Noruega.
Os dois haviam se conhecido em um aplicativo de namoro e resolveram tornar-se exclusivos um do outro antes mesmo de se conhecerem pessoalmente.
Contudo, Juliana veio a descobrir, pouco depois que desembarcou no país europeu, que a exclusividade era apenas do seu lado. Christopher saía com uma variedade de mulheres antes e depois de sua chegada.
O fato, claro, partiu o coração da jovem, que acreditava que viveria um romance de cinema com o namorado gringo.
A chegada
A dupla se encontrou pela primeira vez no aeroporto, quando Juliana chegou à Noruega já de mala e cuia para morar com Chris, como ela o chamava.
A princípio, a química pareceu ser real entre os dois. “Eu estava nas nuvens. Ia morar com o homem que eu amava na Europa. E viver no exterior sempre foi um sonho”, conta ela.
Entretanto, não demorou muito para que o conto de fadas começasse a ruir. “Logo na primeira semana eu descobri que ele tinha saído com uma colega de trabalho um dia antes de eu chegar”, diz.
Sem querer estragar o clima de lua de mel entre eles, a jovem decidiu se calar, mas passou a investigar a vida do companheiro.
Mais traições
“Um dia eu consegui desbloquear o celular dele enquanto ele estava dormindo e tive um verdadeiro choque”, recorda.
Juliana encontrou diversas conversas do amado com muitas mulheres. A maioria delas latina.
“Foi mais fácil do que eu pensei. Como eu não falava norueguês e nós só nos comunicávamos em inglês, achei que teria dificuldade de encontrar algo. Mas estava tudo ali. Um monte de conversas em inglês com colombianas, venezuelanas, chilenas e muitas brasileiras também”, lembra.
Com algumas, inclusive, Christopher já tinha até se encontrado pessoalmente. “Ele nunca foi ao Brasil me ver, mas já tinha ido à América do Sul encontrar várias daquelas mulheres. E algumas já haviam estado na casa dele também.”
Foi aí que Juliana partiu para o confronto. “Fui tirar satisfação. E ele, como um bom manipulador, primeiro disse que todas aquelas mulheres faziam parte do passado dele e me fez me sentir culpada por ter invadido a privacidade dele”, relata.
A moça, então, não apenas se arrependeu de mexer no celular do companheiro, como pediu desculpas e prometeu a ele nunca mais fazer aquilo novamente.
“Eu deixei de lado o fato de que eu me mantive fiel a ele desde o primeiro dia em que conversamos e que ele, enquanto isso, estava curtindo por aí com um monte de mulheres.”
Humilhação
Porém, as coisas foram ficando cada vez piores dentro de casa. “Ele começou a me tratar muito mal. Dizia que eu o tinha feito perder a confiança em mim. Por causa disso, ele me xingava e humilhava muito. Até na hora do sexo”, conta.
E lamenta: “Eu não sei o que eu tinha na cabeça. O cara é que estava errado e mesmo assim eu achava que tinha que aceitar ser maltratada porque eu tinha mexido nas coisas dele sem permissão e era normal ele estar bravo”.
A postura abusiva de Christopher durou por dois meses. Nesse período, Juliana descobriu novas traições. Desta vez, após eles já estarem vivendo juntos.
“Mesmo assim, eu não conseguia reagir. E ele ia ficando cada vez mais agressivo. Eu era tratada como um bicho. E ainda tinha que estar disponível para realizar os desejos dele na cama quando ele bem quisesse”, detalha.
O estopim foi quando Juliana tomou conhecimento de que o namorado havia desembolsado uma boa grana para pagar um hotel cinco estrelas a uma brasileira que estava na cidade para encontrá-lo.
“Essa moça já vivia em outro país da Europa, mas foi à Noruega conhecê-lo. Ele pagou tudo para ela e não fez questão de esconder. Conversou com ela no viva-voz, mesmo eu estando por perto”, explica.
Desconcertada, Juliana começou a gritar e partiu para cima dele, mas foi jogada para o outro lado da sala e advertida a não voltar a tocá-lo.
“Se você colocar um dedo em mim, você é uma mulher morta”, disparou Christopher.
Chorando muito, Juliana correu para o quarto que dividia com o agressor. Sem dinheiro, sem ter outro lugar para ir e em um frio de -14 graus celsius, ela resolveu tentar se acalmar e pensar melhor sobre o que fazer. Afinal, ela não queria abrir mão de seu relacionamento tão facilmente.
“Eu queria continuar com ele. Queria me casar. Eu o amava. E também queria muito continuar morando na Europa. Mal sabia eu que o processo para tentar me tornar uma residente no país era bem mais complicado do que o que Christopher fazia parecer.”
Expulsa
O que Juliana não esperava, contudo, é que não fosse sequer ter a chance de pensar na situação. “Meia hora depois ele entrou no quarto como um furacão e me mandou arrumar as malas”, recorda.
Quando perguntou o porquê deveria pegar sua bagagem, uma vez que agora ela morava ali, o norueguês foi sarcástico: “Quem mora aqui sou eu. Você é só uma pu$@ que eu trouxe para brincar um pouquinho, mas já me cansei”.
Em estado de choque, Juliana reuniu alguns pertences em uma bolsa de mão, mas não mexeu nas roupas. “Eu realmente achei que ele só queria me dar um susto.”
Em seguida, já no carro, a jovem viu o namorado percorrer mais de meia hora em uma estrada cheia de neve até o aeroporto. Chegando na entrada de embarques, ele a mandou descer.
“Ele disse que era para eu entrar e pegar o próximo voo para o Brasil porque não queria mais me ver. Só que eu me recusei a sair do carro.”
Transtornado pela negativa de Juliana, Christopher deixou o aeroporto em alta velocidade e assim que encontrou um lugar ermo, parou o veículo. “Ele desceu, deu a volta e me tirou à força. Conforme eu resistia, ele simplesmente me jogou no chão, na neve, e foi embora”, detalha.
Ainda sem acreditar no que estava acontecendo, Juliana esperou que o companheiro retornasse para buscá-la. “Pensei que ele ia me deixar ali por uns minutos como uma vingança, sei lá, e depois retornaria.”
Ledo engano. Juliana tentou ligar diversas vezes para ele, mas sem sucesso. A única coisa que recebeu foi uma mensagem de texto terminando tudo e afirmando que mulheres latinas eram apenas uma diversão para ele, não pessoas a serem levadas a sério.
“Eu perdi meu chão. Estava congelando, sem dinheiro e comecei a ficar com medo de morrer sozinha no meio da neve. Aí comecei a andar de volta pelo caminho que ele tinha feito até conseguir voltar para o aeroporto”, diz.
Segundo Juliana, foi uma caminhada e tanto. Ao chegar ao local, aliviada e ao mesmo tempo em choque, desabou em um choro compulsivo.
“Um funcionário do aeroporto perguntou se eu estava passando mal. Como eu não parava de chorar, ele me levou a uma sala até que eu me acalmasse. Depois, contei minha história para ele e ele entrou em contato com a polícia.”
Quando as autoridades chegaram, porém, disseram que não havia nada que pudessem fazer. A casa, de fato, era de Christopher e ele não era obrigado a permitir que ela permanecesse lá.
“Eles se ofereceram para irem buscar minhas malas. Mas naquele momento aquilo era o que menos me importava. Eu não tinha nem onde ficar, para que ia querer um monte de bagagem comigo?”, questiona.
Foi aí que a saga de Juliana para encontrar uma forma de sair daquela situação começou. “Me disseram que eu deveria procurar o consulado brasileiro, mas eu não quis. A minha intenção não era retornar para o Brasil, era ficar na Europa.”
Entretanto, as coisas não saíram como a jovem planejou. Depois de mais de 8 horas no aeroporto, tentando ajuda na internet em grupos de brasileiros naquela região, ela não conseguiu nada.
“Eu comecei a me desesperar. Depois que esgotei todas as possibilidades, acabei entrando em contato com a minha família no Brasil e expliquei por alto o que havia acontecido.”
Assim, os parentes fizeram uma verdadeira corrida contra o tempo para tentarem comprar uma passagem para ela retornar ao país. “Minha família não tem dinheiro e uma passagem de última hora, como todo mundo sabe, é caríssima”, destaca.
Por fim, seu pai achou alguém que lhe estendeu a mão. “Um conhecido da minha família comprou a passagem no cartão dele. Só que o embarque era somente no outro dia à noite.”
O único problema era que ela não tinha dinheiro nem para comer. “Graças a Deus eu tinha um pacote de bolacha que tinha trazido do Brasil na bolsa. Foi com aquilo que me alimentei.”
Em casa
Hoje, de volta ao Brasil e dois anos depois do ocorrido, Juliana afirma ser uma nova mulher. “Essa trágica experiência mudou a minha vida. Agora estou muito mais madura e jamais cometeria os mesmos erros.”
Mesmo assim, ela pretende retornar à Europa: “Desde que eu cheguei, eu trabalhei para pagar o valor da minha passagem, que foi caríssima, e guardar o restante. Minha ideia é ir para a Europa de novo e tentar me legalizar. Ouvi dizer que é mais fácil fazer isso em Portugal”.
Contudo, Juliana não quer depender de ninguém desta vez. “Eu irei com o meu próprio dinheiro e sem contar com homem nenhum.”
Já sobre Christopher, ela revela: “Acredita que depois de quase um ano e meio ele me procurou? Disse que sentia a minha falta e que queria vir ao Brasil me ver. Provavelmente já tinha marcado encontro com outras e ia aproveitar para se encontrar comigo também”.
Mas ela não apenas se negou a vê-lo, como não poupou xingamentos a ele. “Falei tudo o que ficou entalado durante esse tempo. Porque quando ele terminou comigo, ele me bloqueou em tudo. Eu não pude sequer dizer o que queria ter dito.”
Apesar da experiência ruim, porém, Juliana não perdeu a fé no amor.
“Eu quero muito encontrar minha outra metade. De preferência uma metade que seja da Europa. Eu tenho certeza que meu futuro marido é um gringo europeu de tirar o fôlego”, completa.
Caso deseje contar sua história, mande um e-mail para euvivi@fatosefama.com.br
Caso você ou alguém que você conhece esteja passando ou tenha passado por algo semelhante, não hesite em denunciar. No exterior, procure a delegacia mais próxima ou o consulado brasileiro. No Brasil, use uma das opções abaixo:
Polícia Militar: Ligue 190 – caso a criança esteja correndo risco imediato
Samu: Ligue 192 – caso seja necessário o socorro urgente
Disque 100: Este número recebe denúncias de violações de direitos humanos, feitas de forma anônima
Conselho tutelar: Os conselheiros vão até a casa denunciada e verificam o que está ocorrendo (todas as cidades contam com conselhos tutelares)
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Qualquer delegacia de polícia
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