ATENÇÃO: CASO VOCÊ SEJA SENSÍVEL A TEMAS QUE ENVOLVAM VIOLÊNCIA, ESSA HISTÓRIA CONTÉM GATILHOS
Todos os nomes foram trocados para que a identidade da vítima seja mantida em sigilo
POR DANIELA TEIXEIRA
“Se você contar para alguém, uma coisa terrível vai acontecer com a sua mãe e com toda a sua família”
Essas foram as palavras que Elizabete ouviu logo depois de viver o pior momento de sua vida. A garotinha, então com 7 anos, havia acabado de ser abusada por tio Gu, a quem via como um verdadeiro pai desde que o seu próprio pai tinha sumido no mundo, anos antes.
O homem, no entanto, não era um tio. Na verdade, ele era seu cunhado, marido da irmã mais velha de Elizabete.
“A minha mãe me teve depois dos 40 anos, então, quando eu nasci, eu já tinha uma irmã 22 anos mais velha. Quando os abusos começaram, eu tinha 7, minha irmã tinha 29 e o marido dela tinha 37”, explica.
O fatídico dia foi apenas o estopim de algo que já estava em curso há bastante tempo. “Muito antes de tudo acontecer ele já passava a mão no meu corpo, colocava a mão dentro da minha calcinha… Era horrível”, relembra.
Sem saber o motivo de Tio Gu estar agindo daquela maneira, Elizabete se sentia bastante desconfortável.
“Eu não entendia o que estava acontecendo, mas eu sabia que não gostava, que me machucava. E eu falava isso para ele, mas ele respondia que era só carinho normal de quem me amava muito.”
Após os primeiros toques, o criminoso seguiu avançando. “Depois de um tempo ele começou a me obrigar a fazer coisas com ele também. Eu chorava muito. E ele dizia que estava muito triste comigo e que não ia mais me amar porque eu não queria brincar.”
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Carente de uma figura masculina, Elizabete se submetia ao jogo sádico do mau caráter. “Eu não sei exatamente quando começou, mas tenho lembranças dele em cima de mim na cama da minha irmã quando eu tinha uns 5 anos”, conta.
Isso porque, como a mãe trabalhava e só chegava tarde em casa, a garotinha ficava sob os cuidados da irmã mais velha. Contudo, a irmã fazia um curso duas vezes por semana no fim da tarde – horário em que o marido já estava de volta do trabalho.
Dessa forma, Tio Gu aproveitava a privacidade para atacar sua vítima. “Quando minha irmã começava a se arrumar para ir para o curso, eu começava a tremer, chorar. E ela achava que era só porque eu gostava muito de ficar com ela”, recorda.
Um dia para esquecer
No fatídico dia, entretanto, o cunhado resolveu ir até o fim com o abuso, o que deixou a criança em estado de choque.
“Eu ainda me lembro como se fosse hoje. Não desejo aquilo nem para o meu pior inimigo.”
Com medo de que Elizabete resolvesse contar a alguém o que tinha acontecido, o cunhado não poupou ameaças para deixar a menina ainda mais assustada.
“Eu vou matar sua mãe e todos os seus irmãos [além da irmã casada com o monstro, a vítima tinha mais dois irmãos do primeiro casamento da mãe].”
Aterrorizada, Elizabete, então, esperou a hora de a mãe buscá-la e foi embora calada. Porém, ao chegar em casa e trocar de roupa para dormir, acabou sendo flagrada pela matriarca com uma calcinha manchada de sangue.
“Minha mãe começou a me perguntar se eu tinha ficado mocinha. Eu disse que não. E aí ela quis saber o porquê do sangue. Eu não queria falar, porque estava com medo de ela ser morta, mas ela me pressionou muito e eu não aguentei”, diz.
A mãe, então, foi imediatamente para a casa de Tio Gu tirar satisfação. Chegando lá, o questionou sobre o abuso. E ele, claro, negou.
“Ela me obrigou a repetir na frente dele e da minha irmã detalhes do que ele tinha feito comigo. Como eu era criança, não tinha como eu saber certas coisas caso não tivesse vivenciado, né?”
Bastante nervoso, tio Gu acabou admitindo o que fez. “Foi uma cena patética. Ele caiu de joelhos, chorando e pedindo perdão pra minha mãe. Falou que foi um momento de fraqueza, uma loucura.”
O que mais chocou a garotinha, no entanto, foi a reação da mãe. “Ela sempre gostou muito dele e preferiu colocar panos quentes na situação. Pediu para ele nunca mais ficar sozinho comigo e falou que, caso aquilo se repetisse, ela procuraria a polícia”, relembra.
Em seguida, levou a menina embora, lhe deu alguns medicamentos para dor durante alguns dias e a obrigou a fazer banho de assento.
“Ela pediu licença de uma semana no trabalho para ficar comigo. Depois me arrumou uma escola de período integral para que eu não precisasse mais ficar na casa do abusador.”
Já a irmã permaneceu com o esposo.
“Quando eu contei o que tinha acontecido, ela me chamou de mentirosa. Depois, quando o marido dela admitiu o que fez, ela ficou muda. Mas nem cogitou se separar”, lamenta.
Inclusive, a mulher até cortou relações com a garotinha de 7 anos. “Ela passou quase dois anos sem nem falar comigo. Quando voltou a falar, nunca mais foi a mesma. Sempre me tratava mal e com grosseria. Parecia que a culpada de tudo era eu.”
Tentando superar o trauma
Atualmente com 25 anos de idade, Elizabete se ressente do fato de não ter tido justiça após perder a inocência nas mãos de um verdadeiro monstro.
“Eu não me conformo até hoje que a minha mãe não procurou a polícia. Pior ainda. Ela fala com o meu abusador como se nada tivesse acontecido. E minha irmã segue firme e forte com ele, mesmo sabendo que ele a trai o tempo todo.”
Por causa da mágoa que carrega, a jovem cortou relações com as duas. “Aquele ambiente era muito tóxico para mim. Imagina eu ter que almoçar, aos domingos, com o cara que fez aquilo comigo?”
Ela ainda busca sarar suas feridas. “Somente agora, tantos anos depois, é que comecei a fazer terapia. Espero que me ajude a sair desse ciclo mental de revolta e tristeza.”
Questionada se acha que um dia vai conseguir perdoar as pessoas envolvidas no terrível episódio, ela avalia: “Em algum momento vou ter que voltar a falar com a minha mãe. Mas nós teremos que ter uma conversa bem franca antes. Já a minha irmã eu não faço questão”.
Sobre o abusador, a moça dispara: “Espero que morra da pior forma possível”.
Elizabete também aproveitou para deixar um recado às mães sobre os cuidados com as crianças.
“Não confiem em ninguém. Parem de deixar os filhos com qualquer pessoa bancando a boazinha que aparece. Esses nojentos estão mais perto do que vocês imaginam. Abram os olhos e cuidem das crianças”, encerra.
Para contar sua história, mande um e-mail para euvivi@fatosefama.com.br
Caso você ou alguém que você conhece esteja passando ou tenha passado por algo semelhante, não hesite em denunciar. No exterior, procure a delegacia mais próxima ou o consulado brasileiro. No Brasil, use uma das opções abaixo:
Polícia Militar: Ligue 190 – caso a criança esteja correndo risco imediato
Samu: Ligue 192 – caso seja necessário o socorro urgente
Disque 100: Este número recebe denúncias de violações de direitos humanos, feitas de forma anônima
Conselho tutelar: Os conselheiros vão até a casa denunciada e verificam o que está ocorrendo (todas as cidades contam com conselhos tutelares)
Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres
Qualquer delegacia de polícia
WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008