Eu vivi: Vendi tudo para viver um amor na Turquia, mas namorado era ‘fake’

Mulher no aeroporto

Foto: Pixabay

 Todos os nomes foram trocados para que a identidade da vítima seja mantida em sigilo

 

POR DANIELA TEIXEIRA

 

Desespero. Medo. Tristeza. Decepção. Lídia não sabia sequer identificar a mistura de sentimentos que tomou conta dela ao receber aquela mensagem de Mohamad.

Em Istambul, na Turquia, em sua primeira viagem internacional, a empregada doméstica, de 37 anos, estava feliz da vida por estar prestes a, finalmente, encontrar seu grande amor.

Foram, ao todo, 3 anos e meio de conversas pela internet. Ao longo desse tempo, Lídia começou a mandar remessas de dinheiro a Mohamad para que ele terminasse a construção e começasse a mobiliar a casa que ambos dividiriam quando ela se mudasse para a Turquia.

Com dois filhos ainda pequenos, de 6 e 9 anos de idade, Lídia trabalhava como secretária do lar para uma família abastada e fazia faxinas extras aos fins de semana para dar conta de criar os garotos e ainda ter algum dinheiro para enviar ao namorado turco.

Por sorte, o ex-marido sempre bancou a maior parte das despesas dos pequenos, o que possibilitou Lídia a ter mais dinheiro para dar andamento à construção da casa com Mohamad.

“Meu ex sempre foi muito bom pai. Ele fazia compra do mês para não faltar nada em casa e ainda dava mais que o valor da pensão. Meu dinheiro era praticamente só para gastos extras das crianças e para mim”, conta.

Ainda assim, o valor da passagem para a Turquia era muito alto. Mesmo economizando cada centavo, ela estava longe de conseguir adquirir seu tão sonhado bilhete.

“Estava difícil comprar a passagem porque eu estava mandando a ele quase todo o meu dinheiro para terminar a casa. Sobrava só um pouquinho, que eu ia guardando para poder viajar para lá”, explica.

Sem nunca ter visto Mohamad pessoalmente, Lídia confiava cegamente no rapaz, 12 anos mais jovem que ela.

“Eu não tinha motivo para duvidar. Ele sempre me mostrou fotos e vídeos da obra, a gente escolhia juntos os móveis para a casa. Ele fazia chamada de vídeo para eu escolher os itens que eu queria”, recorda.

Devido os gastos com o imóvel, Lídia nunca insistiu para que Mohamad viesse primeiro ao Brasil conhecê-la.

“Ele dizia que não tinha dinheiro, que estava investindo tudo na casa. E eu sempre entendi. Sabia que a gente estava fazendo um sacrifício para um bem maior.”

A ideia de contribuir com a obra surgiu logo que os dois se conheceram em um aplicativo de namoro na internet.

“Assim que começamos a nos falar, eu já senti uma conexão muito forte com ele. Dois dias depois, ele me pediu em namoro. Em menos de um mês, me pediu em casamento. E eu aceitei”, relembra.

E detalha: “Quando começamos a conversar sobre onde iríamos morar, ele me disse que não podia deixar a Turquia, já que era dono de um restaurante. Então, sugeriu construir uma casa em um terreno que ele tinha”.

Com isso, ambos decidiram que ela mandaria, todos os meses, o máximo de dinheiro que conseguisse para tudo estar pronto o quanto antes e eles poderem, enfim, ficar juntos.

“O problema é que sempre tinha algum contratempo. Era cano que rompia, parede que precisava ser derrubada de novo. O trabalho dos pedreiros foi se estendendo mais e mais”, revela.

No entanto, Mohamad prometia mundos e fundos para Lídia, que ficava cada vez mais apaixonada. Segundo o rapaz, assim que ela terminasse de ajudá-lo com os gastos da construção, não precisaria mais ‘pegar no batente’.

“Ele dizia que mulher dele jamais ia ter que trabalhar para pagar contas. Muito menos limpando a casa dos outros.”

Porém, em meio aos planos da dupla, veio a pandemia e o fechamento das fronteiras. Isso deixou o sonho de Lídia de se reunir com seu amado cada vez mais demorado.

“Durante esse tempo, continuei enviando dinheiro porque eu não parei de trabalhar. Meus patrões não me deixaram fazer a quarentena. Ao contrário dele, que disse que teve que fechar o restaurante.”

Mudança de vida

Quando o mundo retornou ao normal e os países voltaram a receber passageiros internacionais, Lídia tomou uma decisão drástica.

“Eram mais de 3 anos de conversa. Eu estava cansada. Resolvi vender a casinha que eu tinha, que era bem simples e não valia muito, para finalmente ir encontrar o Mohamad.”

A ‘noiva’ do turco, então, usou o dinheiro para adquirir as passagens, renovar o guarda-roupa e comprar dólares para a viagem.

“Eu queria chegar linda para encontrar Mohamad. Depois de tanta espera, nós dois merecíamos estar na nossa melhor versão.”

O restante do valor da venda, Lídia optou por enviar ao futuro marido. “Ele me disse que seria melhor eu mandar pelo banco para não viajar cheia de dinheiro. Mesmo porque nem pode sair do Brasil com muito dinheiro na mão, né?”

Sobre os filhos, ela admitiu:

“Eu estava tão cega de amor que não me importei em deixá-los com o pai deles. Eu sabia que eles iam sentir minha falta, mas iam ser bem cuidados. Isso era o que importava para mim”.

Para chegar à Turquia, Lídia sofreu. “Foi muito difícil. Eu nunca nem tinha andado de avião e já fui logo para uma viagem internacional. Andava igual barata tonta, não entendia nada. Quase perdi o voo que saiu do Brasil, depois quase perdi a conexão também. Eu fiquei a ponto de passar mal.”

Golpe revelado

No entanto, nada disso se compara ao que ela precisou enfrentar ao desembarcar em seu destino final. “Logo que passei pela imigração, o que foi outro sacrifício porque eles quase me barraram, eu peguei o sinal de wifi para saber onde o Mohamad estava. Mas o telefone chamava e ele não atendia”, lembra.

E prossegue: “Aí mandei uma mensagem de texto querendo saber dele e dizendo que eu já estava do lado de fora do terminal. Ele leu, não respondeu e eu continuei insistindo. Fiquei mais de três horas enviando mensagens para ele e tentando contato”.

Por fim, o tal Mohamad parece ter se compadecido de Lídia: “Eu comecei a enviar fotos e vídeos chorando com frases em turco, que eu traduzi na internet. Acho que ele teve dó de mim e abriu o jogo. Falou que não ia aparecer no aeroporto”.

Isso porque o namorado virtual dela, na verdade, não passava de um golpista. “Eu perguntei: ‘Como assim você não vai vir me buscar?’. E ele falou: ‘Você ainda não entendeu? Eu só estava precisando de alguém que me desse dinheiro’. E ainda completou com uns emojis de risada.”

Chocada, Lídia teve uma crise de choro no aeroporto. “Quando minha ficha foi realmente caindo, eu me desesperei. Fui para o banheiro e tive um ataque de pânico. Eu chorava tanto que não conseguia respirar.”

Foi difícil para ela se controlar.

“Eu pensava em tudo o que eu tinha feito. Foram 3 anos mandando dinheiro para aquele cara e eu ainda tinha acabado de mandar todo o resto da grana da venda da minha casinha para ele.”

Fora isso, Lídia não sabia como fazer para voltar ao Brasil. “Para viajar assim, eles exigem que a gente compre passagem de ida e volta, né? Só que a minha volta estava agendada para dali a três meses.”

Sem saber o que fazer e sem conseguir se comunicar com os funcionários do aeroporto, mesmo com o tradutor do celular, ela entrou em contato com uma prima que conhecia um pouco de sua história com Mohamad.

“Ela foi a minha salvação. Conseguiu resolver tudo para mim. Foi uma grana alta para reagendar a passagem, mas pelo menos eu ia poder voltar.”

Porém, não no mesmo dia. “Infelizmente, o próximo voo era apenas no dia seguinte, no fim da tarde. Tive que me virar como dava no saguão do aeroporto por mais de 24 horas.”

Mesmo com o retorno garantido, Lídia não deixou de tentar cobrar mais explicações de Mohamad. “Eu queria meu dinheiro de volta, comecei a xingar ele e ameaçar chamar a polícia. Ele riu e disse que nada do que eu achava que sabia sobre ele era verdade.”

Irritado com as cobranças, o rapaz, então, deu o tiro de misericórdia.

“Você acha mesmo que eu ia ficar com uma velha gorda e acabada igual você? E ainda por cima cheia de filhos e vagabu&#@?”.

E ameaçou, fazendo menção aos ‘nudes’ que Lídia costumava enviar a ele ao longo do namoro fake. “Se você continuar me enchendo o saco eu vou mandar suas fotos pelada para toda a sua família. Não volte a me procurar. E esqueça o seu dinheiro porque ele está em boas mãos.”

Após isso, Mohamad a bloqueou e ela nunca mais teve notícias dele.

Recolhendo os cacos

Atualmente, Lídia ainda luta para se reconstruir emocionalmente e financeiramente. Sem casa para morar e com o coração partido, ela afirma estar vivendo um dia de cada vez.

“Não é fácil. A vergonha de ter sido enganada, de ter perdido minha casinha – que era a única coisa que eu tinha -, de ter deixado meus filhos para trás para viver um amor que nunca existiu… tudo isso me deixa muito envergonhada”, confessa.

Entretanto, ela não vai desistir até se estabilizar novamente. “Eu tenho fé de que um dia vou comprar uma casa nova, melhor que a antiga, e que ainda vou encontrar alguém que me ame de verdade e que é sincero comigo.”

Questionada se, depois do que passou, ela iria parar de se comunicar com homens estrangeiros, Lídia surpreende. “Vou continuar procurando gringos porque, apesar de não falar outros idiomas, eu acho eles muito mais interessantes do que os brasileiros.”

E avalia: “Foi uma experiência ruim, que ainda me dói muito, mas isso não pode me impedir de conhecer novas pessoas. Eu sigo amando homens turcos. Eles são muito charmosos”.

Sobre reativar o aplicativo de namoro no qual conheceu Mohamad, ela diz: “Já estou lá de novo. Só que até agora não conheci ninguém para um namoro sério. A maioria dos homens do Oriente Médio só quer sacanagem”.

Por fim, Lídia deixou um conselho a mulheres que, como ela, gostam de arrumar namorados internacionais na internet.

“Não ignore os sinais, não mande dinheiro, não mande ‘nudes’ com o seu rosto na imagem, mas se jogue no amor. A vida é muito curta para não arriscarmos. Eu me dei mal, mas isso não me define. Foi um azar. Eu continuo acreditando que meu príncipe estrangeiro ainda vai aparecer a qualquer momento”, encerra.

 

Caso deseje contar sua história, mande um e-mail para euvivi@fatosefama.com.br

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Conselho tutelar: Os conselheiros vão até a casa denunciada e verificam o que está ocorrendo (todas as cidades contam com conselhos tutelares)
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(61) 99656- 5008

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